Na tentativa de criar um hábito melhor voltado ao desenvolvimento da minha religiosidade, tenho lido diariamente a “Bíblia da Mulher.” Pelo que estudei desse formato, a redação literal das passagens bíblicas é a mesma; o que a diferencia são as notas de rodapé e os artigos contidos ao longo dos capítulos que enfatizam e explicam de forma mais clara a relevância das mulheres, protagonistas ou coadjuvantes das histórias relatadas na Bíblia. Ou seja, um olhar voltado também ao papel das mulheres ao longo da existência humana – desde o início da humanidade – cujas interpretações às vezes passaram despercebidas sob o ponto de vista único e exclusivo da leitura bíblica cotidiana.
Assim, de forma lenta, mas constante, tenho me aprofundado cada vez mais no conhecimento sobre as mulheres que tiveram papel relevante na evolução humana. E, após cada leitura, é possível fazer um paralelo sobre nossa atual realidade e como, em determinados momentos, o comportamento daquelas mulheres – nem sempre bons ou ruins, mas humanos – se replicam também em nós ainda nos dias de hoje.
É evidente que todas merecem destaque, mas hoje, 30 de janeiro de 2026, li talvez um dos artigos mais intrigantes da Bíblia da Mulher até agora. Estou lendo o livro de Gênesis e hoje ele fez um recorte interessante sobre “A Esposa de Potifar”; mulher cujo nome nem sequer é conhecido, mas cuja história segue sendo contada há gerações, como aquela que injustiçou José.
Por já conhecer vagamente a história contada em Gênesis, já conhecia essa passagem em específico, onde a esposa de Potifar, qualificada como uma das “mulheres más da Bíblia”, chama José para sua cama e, após resistência e negação dele, o denuncia ao seu esposo Potifar de ter tentado estuprá-la. Por esse motivo, Potifar, acreditando em sua esposa, envia José, injustamente, à prisão.
Assim, pela leitura isolada do Capítulo 39 do Livro de Gênesis – o qual já havia o feito pelo menos três vezes – também condenei por inúmeras vezes a esposa de Potifar por ter mentido e ser a responsável por manter – indiretamente – José na prisão, acusado de um crime que ele não havia cometido.
No entanto, ao ler o recorte específico do artigo destinado à história completa da “esposa de Potifar”, reconheço o quando ainda estamos – me incluo nesse grupo – na posição de julgar com mais rigor as mulheres.
O fato descrito biblicamente foi que uma mulher (esposa de Potifar) tentou abusar de um escravo (José). Mas, se naquela mesma época Potifar tivesse tentado, e até conseguido, abusar de uma escrava isso nem sequer seria considerado adultério.
Embora todos esses fatos tenham acontecido em um passado muito remoto, vejo que ainda guardamos parte daquela mentalidade de diferenciar o peso dos delitos e das punições a depender de qual gênero estamos nos referindo.
Não é meu objetivo defender a conduta da esposa de Potifar. Ela errou, mentiu, enganou e por conta do seu comportamento maldoso, um homem bom e inocente foi mantido na prisão por vários anos. O que analiso aqui é tão somente ponderar e fazer com que meu interlocutor reflita sobre o qual de julgamentos e sanções que dispensamos a homens e mulheres, de forma diferente, pelo cometimento de erros semelhantes.
Utilizo das palavras tiradas exatamente do artigo lido: “a esposa de Potifar só tenta o que seu marido poderia ter feito com uma escrava sem que ninguém o censurasse.” Contudo, até os dias de hoje, Potifar é reconhecido como como oficial e comandante do faraó, e sua esposa (cujo nome nem sequer é mencionado), segue lembrada tão somente por ser a mulher má da Bíblia.


