Um leitor compartilhou comigo a interpretação dele sobre meu último texto e a primeira coisa que pensei foi: mas não foi isso que eu quis dizer! Refleti e ele me fez entender que um texto, depois de jogado ao mundo, passa a ter muitas versões: a que a escritora pensa, a que a narradora conta e a que o leitor entende.
Apesar das metáforas e dos recursos de linguagem, quando escrevo, me esforço para que o leitor entenda exatamente o que quero expressar. Nessa tarefa lembro de Conceição Evaristo me dizendo “a escrita me deixa em profundo estado de desesperação, a letra não agarra o que o corpo diz.” Como então perseguir a escreviência na tarefa prazerosa de recontar uma história? Tarefa difícil, já que escritor é artesão de palavras e a arte não é literal, caso o fosse, não seria arte.
É por isso que na literatura, a genialidade não mora na literalidade, mas sim nas interpretações pessoais de cada leitor, tidas a partir do que ele vive, crê, experiência, estuda, conhece, valoriza… o que está escrito é uma coisa só, mas a leitura é única.
Texto é substantivo abstrato inanimado, mas tem vida, e não se esgota depois de lido, relido ou re-relido. Enquanto houver um único leitor que ainda se lembre das suas palavras e elas o conduzirem à reflexão e ao pensamento, ele se mantém eterno.
Ideia, depois de publicada, é balão de gás solto no céu, não se pega com as mãos, mas alcança lugares que nem “o dono” imagina. E não morre. Já olhei pra cima e vi balão ir pra tão longe que o perdi de vista, mas nunca vi balão morrer. Texto também.


