Começar o ano criando meu próprio Clube do Livro aqui em Silvânia já era uma vontade que estava em meu coração. Sonhei, projetei, organizei e criei. Hoje, 29 de janeiro de 2026 ao começar a escrita deste texto, nosso movimento já soma 32 mulheres que juntas, embarcaram comigo nessa jornada de conexão por intermédio dos livros.
“Livros, para mim, são tão importantes quanto o que há de mais sagrado nesta vida: um apanhado de folhas que nos transportam para mundos que nos confortam e parecem sempre aparecer na hora certa.”
A primeira leitura do clube, escolhida por mim, foi Aurora, o Despertar da Mulher Exausta, escrito por Marcela Ceribelli, do qual retirei a citação. Parece até redundância da minha parte, se comparado ao nome do livro, mas ele foi de fato um verdadeiro despertar na construção da mulher que estou me tornando.
Já contei isso em outras oportunidades, mas Aurora foi um presente da minha amiga Jamilly, em maio de 2023. Na época eu estava bem afastada das leituras. Ela não sabe disso, mas ele ficou embrulhado no plástico dentro no meu guarda roupas por meses. Em novembro de 2023 viajei para São Paulo e achei que essa seria uma ótima oportunidade de deixar o tédio de lado enquanto esperava entre uma ponte aérea e outra.
Só que a leitura das primeiras páginas, pela primeira vez, causou-me sentimentos que talvez até hoje eu não consiga nomear. Trinta páginas profundamente dolorosas e eu só tinha vontade de chorar, muito. Cada página despertava em mim a dor de ver a mulher que aos poucos fui deixando pra trás. Aurora, me deixou sem ar e por um momento eu fiquei em chão. Quando fui que me perdi atrás dos padrões impostos pela sociedade, dos amores vazios, das privações da vida que eu mesma me coloquei e nem percebei? Minha sensação era ser uma passarinha presa em uma gaiola, desesperada pra voar.
Só que naquele momento, continuar lendo Aurora era demais pra mim. Era dolorido demais ver o quanto aquela Lorena estava escondida em um lugar que ela nem sabia. Por isso, me faltou coragem para continuar. Fiquei anos sem compreender o motivo pelo qual ter lido essas páginas havia me tocado tanto.
Só que hoje, 03 de fevereiro de 2026, li um texto da Marta Medeiros, que dizia mais ou menos assim
“[…] Morre lentamente quem vira escravo do hábito. […] Morre lentamente quem evita uma paixão. […] Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo. […] Que o menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maios do que simplemente respirar.”
Ainda, parafraseando Aurora, “quando damos nome as coisas elas passam a ter significados limitantes.”E foi assim que consegui nomear o que senti naquele novembro de 2023: uma morte lenta. Me doeu tanto ler aquele livro, naquele momento, porque aquelas páginas me fizeram enxegar que eu estava me perdendo aos poucos: uma escrava do hábito, sem amores, sem viagens, livros, músicas…. e isso me deseperou de uma forma que naquele momento a verdade da morte lenta se aproximando ela deveras insuportável. Por isso, ali, sentada em uma cadeira do aeroporto, desisti daquela leitura.
Felizmente, aquela viagem de mudou minha vida e o ano seguinte (2024) foi totalmente voltado ao meu reencontro, com doses homeopáticas de tudo aquilo que me fazia bem. Ouvi em um dos podcasts do Bom dia Óbvius e depois revisitei no livro a frase dita pela Marcela, que norteou meu processo de transformação como mulher: “Não soam trombetas quando momentos decisivos estão acontecendo em nossa vida, o destino se deixa conhecer silenciosamente.” Assim, de forma muito natural e sutil percebi que aquele ano havia silenciosamente me levado a uma grande transformação.
Assim, em 2025, já mais cheia de vida e de luz, eu já estava devidamente preparada para a leitura daquele livro. Mesmo com medo de dar de cara com as minhas dores, criei coragem para iniciar a viagem.
Li Aurora, integralmente, pela primeira vez ano passado. Àquela época, foi uma leitura leve, porém necessária, para mim e para tantas outras mulheres que talvez nem sabiam que precisavam tanto dela.
Por isso, quando tive a ideia de criar o clube, o primeiro livro que me veio à mente foi esse. Da mesma forma como ele me trouxe questões transformadoras e evidentemente passíveis de reflexão interna, ele poderia ajudar outras mulheres em seus mais diversos “despertares”. Agora, lendo-o pela segunda vez, junto com as meninas, sinto uma mistura de: já sei o que vai acontecer no final, mas tenho mais tempo para me demorar nos detalhes que passaram despercebidos.
Me enxergo nas páginas dos primeiros capítulos, quando o assunto do debate é quase literalmente “exausta de estar exausta”, e me identifico em número, gênero e grau, com uma dorzinha no coração, com a mulher que eu fui. Os primeiros questionamentos do livro são exatamente aqueles voltados ao excesso de trabalho, ansiedade, produtividade tóxica, cumprimento de metas e tudo mais que decorre da necessidade contemporânea de sempre estar muito ocupada. Até hoje, mesmo sabendo o que tem escrito e lembrando que não sou mais aquela mulher que dava tudo e mais ou pouco pelo seu trabalho e não vivia o mundo ao seu redor, leio aquelas páginas com certo cansaço e fadiga emocional. Felizmente, não sou mais essa pessoa, e quando revisito uma passagem assim, só peço baixinho que a vida não me envie de volta pra aquele lugar de exaustão emocional. Eu não suportaria.
Passado este capítulo da minha vida, e do livro, entramos no tema das “Mulheres Difíceis”. A mim, talvez passar por este tema não tenha sido tão dolorido por não ser minha maior dor como mulher, mas notoriamente seja um dos quais os fatos ali citados sejam os mais vivenciados na realidade feminina. Embora eu tenha sido uma mulher jovem, inserida cedo no mercado de trabalho e lutado bastante pra chegar onde cheguei, enxergo-me mais orgulhosa a do que pesarosa. “Sinto-me bem sucedida quando consigo encaixar prazeres nos dias cotidianos”, marquei no livro.
Infelizmente, algumas de nós não ainda não atingiram a mesma fase. Nas páginas dedicadas à demonstrar as comparações entre mulheres e homens principalmente em ambientes corporativos, vejo nossa escritora relatar com precisão fatos que rotineiramente acontecem em nosso ambiente de trabalho. Há uma frase que me marcou muito: ‘Um cara muito menos competente do que você achava que era. Muito menos talentoso do que pensava. Mas que se vendia bem, e isso conta bastante num mercado cujo propósito é fazer com que as pessoas comprem mentiras e se satisfaçam com elas.” E pra mim, talvez ela tenha sido tão marcante por refletir nada mais que a realidade: Diuturnamente mulheres se veem esforçando três vezes mais e sendo duas vezes mais competentes para receberem o mesmo ou talvez menos reconhecimento que um homem teria, fazendo apenas a metade, em uma mesma relação de trabalho.
Hoje, vejo essa descrição refletir na minha própria realidade. Sou uma mulher já muito satisfeita pelo nível de sucesso profissional que já consegui atingir. Porém, passei a enxergar com mais clareza, após a leitura do livro, que muito do que já consegui conquistar, veio de forma quase exclusiva no meu elevado nível de responsabilidade, dedicação e competência. Me orgulho de que tenha sido assim. Contudo, ser uma mulher notoriamente reconhecida e admirada em seu ambiente de trabalho exige que você seja pelo menos, extraordinária. Ao contrário disso, vejo outros profisisonais, em sua maioria homens, que adquirem alto nível de respeito e admiração, tão somente por passarem a imagem de competência – literalmente uma imagem consubstanciada em um terno impecável, um corte de cabelo em dias, um relógio bonito e um carro de luxo – mas que nada, ou muito pouco entregam no quesito de técnica, eficiência e quiçá bom caráter.
Ou seja, se você for homem e errar, seu erro é desculpável. Mas, se você erra sendo uma mulher, seu erro é quase imperdoável. Reconheço e vivencio diariamente as diferenças entre reconhecimento profissional entre homens e mulheres mas, felizmente tenho lutado bravamente – e conseguido – construir solidamente uma posição de mais reconhecimento feminino dentro do ambiente corporativo, rompendo, aos poucos com a cultura de diminuir o papel e a relevância das atividades femininas dentro daquele espaço, o que tenho diaramente encorajado outras mulheres a fazer o mesmo.
Superadas as discrepâncias no âmbito profissional, a leitura caminha pelo amor ao nosso próprio corpo. Nem me permito dizer que essas reflexões me causaram dor, porque preciso humildemente reconhecer meu pequeno espaço de fala dentro de um corpo “relativamente muito magro”, se comparado aos padrões da sociedade. E, por estar há algum tempo satisfeita com o que tenho visto no espelho, aquelas páginas foram necessárias, porém não as de maior destaque na transformação da minha forma de pensar.
No entanto, aqui faço uma crítica severa a um assunto que já tenho debatido e opinado com frequência: o excesso de exigência da nossa sociedade atual em termos lifestyle com altos níveis de disciplina em exercício físico e dieta em busca do utópico corpo perfeito. Há algum tempo deixei de lado a paranóia dos sete treinos na semana e da contagem de calorias e passei a entender a enxergar a atividade física como hobby e uma boa alimentação como rotina saudável, deixando de lado qualquer tipo culpa quando uma das duas coisas (treino e alimentação) não saíam como planejado.
Apesar de já ter flexibilizado minhas exigências quanto à saúde física, reconheço que mantenho um excesso de cobrança interna em busca da perfeição. Penso que os sintomas físicos são mais fáceis de serem tratados, mas os psíquicos, aqueles que seguem internalizados em nós desde a infância, levam um tempo a mais para serem dismistificados.
Levei um tempo para entender que a exaustão mental não vinha do excesso de trabalho (hoje nem considero mais que minha jornada é exaustiva), nem do cansaço físico. Mas, sim dos elevados níveis de autoexigência. Grifei esta frase porque ela de fato precisava ser lida, relida e lembrada por mim: “Eu vivia uma competição sem fim comigo mesma. Eu não queria ser melhor do que ninguém, apenas a melhor que eu pudesse ser. Quando você quer ser apenas o melhor que pode ser, quando ficaria bom o suficiente para parar?” E quando seu adversário é você mesma, quem diz que você ganhou o jogo? Mal saberia eu, se não tivesse a oportunidade de tantas mudanças silenciosas, que uma partida sem adversário não tem final. Você nunca ganha e você nunca para.
Até hoje eu fico ansiosa só de ler essa frase, acreditam? Será que é porque ela é tão real pra mim? Por sorte, tenho competido comigo mesma cada vez menos.
E por falar em jogos, quando o livro passou a falar de amor, me enxerguei aqui: “Já que dói demais perder eu prefiro parar de jogar, mesmo que exista a chance de ganhar.” Lembro-me de comentar em terapia sobre essa frase e sobre o quanto ela havia me marcado. Em resumo, até um tempo atrás (qualifique o seu melhor pretérito aqui para demonstrar o quão passado me refiro), eu me retirava do jogo do amor com medo de perder e nessa resitência, tive poucas chances de ganhar. Afinal, “se você não for ao baile, nunca será rejeitada, mas também nunca poderá dançar.” Descobri que gosto muito de dançar, do meu jeitinho elegantezinho e desengonçadinho, mas gosto. Por isso, como o amor é um assunto em construção, limito-me a dizer que estou no jogo – e na pista – e dedicarei a ele vários textos ao longo desse projeto.
Por fim, o meu maior despertar tenha sido criar coragem para voltar ao que sempre me moveu: escrever. Ainda que hajam outros projetos paralelos, tudo gira em torno de dar nome às emoções em forma de palavras. E foi por isso que nas duas leituras de Aurora, estava anotado nas minhas notas “Talvez você deva escrever sobre isso: da cura que é reservar um momento para se ouvir, nomear sentimentos internos e estabelecer essa conversa diária com nossos oceanos internos.“
Então, aqui estamos. Escrevendo, cada vez mais.


