Cidade de Pedra, Janeiro de 2026

Começo 2026 com o propósito de fazer doze viagens. A conta é simples: uma viagem por mês. Talvez me falte tempo e dinheiro para todas elas? Sim, mas quando se tem um propósito é mais fácil saber por onde começar a caminhar. E, para mim, qualquer lugarzinho inédito já pode ser muito bem qualificado como uma viagem. Um dia ou um mês, 2026 será um ano muito viajado.

Dito isto, começo Janeiro com a primeira delas, do ladinho da minha casa: Piri. Depois que passei a sustentar meus próprios desejos e criei coragem para dirigir longas distâncias no meu carro, Pirenópolis passou a ser um destino tão leve de chegar que é um desperdício de vida ir tão pouco lá. Claro, reconheço que para mim o acesso é um pouco mais facilitado por conta das amizades que fui adquirindo lá. Ter amigos em Pirenópolis me rende oportunidades de: “deu vontade é só ir” sem às vezes me preocupar de ter que alugar um lugar.

Assim, com sede de viver tudo de bom que a vida tem me proporcionado, fui pela incontável vez a Piri, viver uma “outra vida” em menos de vinte e quatro horas.

Embora eu tenha perdido as contas de quantas vezes já estive naquela cidade, sinto que cada nova chegada ali é pra viver algo diferente. Ali ainda tem tantos lugares inexplorados por mim: pousadas que nunca me hospedei, restaurantes que nunca frequentei, sabores que nunca experimentei, lugares que nunca estive, trilhas que nunca fiz, cachoeira que nunca conheci… por isso, cada novo retorno é também uma nova chance de experienciar algo inédito.

Pernoitei em um quarto simples e confortável. Janelas e portas para a rua; e dali eu conseguiria com facilidade ir a pé ao ponto noturno mais badalado: a Rua do Lazer. Cheguei na cidade e as luzes da noite já estavam acesas, com resquícios de um Natal de um pretérito perfeito.

Um Natal no pretério perfeito.

O plano era que a noite fosse tranquila, já que o outro dia me exigiria energia e disposição para a aventura do rolê. E não só por isso. Já era uma vontade antiga, ter uma experiência, sozinha ou acompanhada, de viver um jantar gastronômico legal ali, um bom vinho, apreciando os sabores de um prato diferente, coisas que só aquela cidade poderia me proporcionar. Eu sabia exatamente o restaurante e o prato que eu pediria: Lasanha Melanzane, no Ruá. Uma amiga vegetariana havia indicado esse prato nesse mesmo restaurante uns meses atrás e a vontade de experimentá-lo ficou na memória. A foto do prato ficará apenas da imaginação dos meus leitores, os quais convido a também experimentar essa delícia. Mas, por ora deixo vocês com a visão do meu prato de entrada: uma burrata deliciosa, fabricada pela casa.

Por isso que ir a Piri, não é só uma oportunidade de viver mais uma beleza cênica, mas também experiênciar mais um sabor inédito da rica gastronomia goiana. Como Goiás é rico em sabores ! Dito isso, se eu puder deixar uma recomendação, ouçam-me: não passem por aquela cidade sem antes dar-lhe uma chance de viver um sabor inédito. Burrata da casa e Lasanha Melanzane devidamente aprovados, seguimos para uma noite tranquila, em preparação para a aventura do outro dia.

Quando o outro dia começou, ainda era noite. Às 2h30min (A.M), o despertador não decepcionou, o ponto de encontro do grupo seria às 3, na saída da cidade. Dali dirigimos por 40km até Cocalzinho de Goiás, onde encontramos o guia e seguimos por cerca de uma hora de carro até à Cidade das Pedras, local de início da trilha, muito bem acompanhados e guiados pelo Sizer, da @cocal_ecotrip.

A vida ainda se tecia no breu, mas nosso dia já havia começado. Parecia escuro, mas conforme nossos olhos se adaptavam à escuridão, foi belo contemplar o amanhecer da vida no cerrado. Pequenos feixes de luz anunciavam que o astro rei viria. Entre o vislumbre da sombra entre uma árvore e outra, seguíamos nos deliciando com a Aurora do Cerrado ao horizonte, dançando entre uma cor e outra e colorindo de verde o que até então parecia escuro.

Como faço passeios de ecoturismo com frequência e sou acostumada com trilhas maiores, o trajeto desta – cerca de 2.5km incluindo ida e volta – pode ser qualificada com o nível de dificuldade bem fácil, até para quem nunca trilhou. Maiores emoções guardadas para o final, em um trecho de pequena escalaminhada (caminhada + escalada, literalmente), até chegarmos ao pico da Pedra do Simba.

A Pedra do Simba foi apelidada com esse nome por ser muito parecida com a pedra em que o Simba foi apresentado por seu pai, Mufasa, ao reino animal. Ela é o ponto mais alto visitável da Cidade de Pedras, com 1.305 metros de altitude. E foi exatamente no pico desta pedra que tínhamos que chegar minutos antes da chegada do astro rei, justamente porque a cereja da expedição seria assistir dali, o nascer do sol.

Lá, entre um sentir e outro, lembrei do Emicida, quando ele brindou todas as infinitas coisas que acontecem antes do nascer do sol:

“O Sol só vem depois
É o astro rei, ok, mas vem depois
O Sol só vem depois.”

Há muito cerrado antes do nascer do astro rei, e é lindo de se viver!

Não direi detalhes sobre a experiência porque convoco vocês, leitores, a vivê-la pessoalmente. E quando esse dia chegar, contemplem de forma profunda a chegada D’ele e a imensidão de vida e de cerrado abaixo e além de nós.

Abaixo e ao lado de nós, perde-se de vista uma visão privilegiada do cerrado, imenso, quase além do horizonte, nunca antes visto e explorado pelos meus olhos e pelos meus pés. O período de chuva indica uma floresta inteira revivendo; as árvores voltam a ficar verdes, vindas de um período de seca e fogo (natural ou manejado), recente, renovando a vegetação, o ciclo dos nutrientes, a germinação das sementes e o controle de animais. Para os olhares sensíveis, é lindo ver a natureza vivendo seu ciclo natural.

Uma vez que o dia raiou, já em terra firme, seguimos a trilha e viajamos para a “Cidade Perdida dos Pirineus”, o maior complexo de formações geológicas do Brasil, com área de aproximadamente 500 hectares. E você leitor goiano, consegue acreditar que tudo isso fica apenas 200 km da sua cidade? Perto demais para viver e não conhecer.

Sucintamente, porque espero que você conheça pessoalmente essa história, a Cidade de Pedra, descoberta e batizada como “Cidade Perdida dos Pirineus” em 1871 pelo francês naturalista François Henry e redescoberta em 2004 pelo historiador Paulo Bertran. Suas formações rochosas lembram ruídas urbanas, como muralhas, praças e túmulo, o que se assemelha com uma verdadeira cidade, mas que apesar de parecerem obras humanas – ou até sobrenaturais – são formações rochosas formadas por processos tectônicos há aproximadamente 600 a 900 milhões de anos.

Bem, visitar este lugar é uma oportunidade excelente para exercitarmos nossa “pareidolia” – um fenônimo psicológico e neurológico que faz com que o nosso cérebro identifique formas familiares – rostos, animais, objetos. Esse fenônimo resolve enigmas visuais e une o lúdico da nossa imaginação à ciência.

É por isso que a primeira vista, transitar pela Cidade de Pedras parece ser tão somente uma caminhada dentro de um cerrado cercado de grandes pedras, mas conforme avançamos e deixamos o ambiente mais familiar, visualizar símbolos e imagens conhecidas se transforma em uma técnica de adaptação ao ambiente.

Aos olhares sensíveis e atentos de quem passa a se enxergar como parte integrante da natureza, é possível visualizar formas familiares, tais como: jacaré, mamute, índio, capivara e muitas outras. Veja como essa pedra se assemelha ao verdadeiro jacaré petrificado.

E as descobertas ancestrais não param por aí. No meio de toda a cidade há um verdaeiro “portal pretrificado” em que ultrapassá-lo se mostra parte obrigatória do passeio. Neste portal, é possível perceber formações rochosas com semelhanças muito próximas a uma verdadeira cidade, tais como: muralhas, praças, templos, teatros… A semelhança é tão próxima que o primeiro descobridor do local, o francês François Henry, imaginou tratar-se da cidade perdida de Atlântida – a lendária civilização descrita nas obras de Platão que foi submergida pelo Oceano Atlântico.

Até os dias atuais, não se sabe se Atlântida realmente existiu, mas desde então sua referência tem se tornado sinônimo de qualquer suposta civilização pré-histórica perdida e avançada das ficções contemporâneas. Ainda que a grosso modo a Cidade de Pedra seja tão somente formações geológicas de milhares de anos atrás, não há como negar a magia histórica milenar guardada naquele lugar. A grandeza das paisagens cênicas esculpidas pelo tempo e beleza da evolução geológica milenar.

Apesar de todos os mistérios que envolvem o local não passarem, a início de uma experiência lúdica e imaginária sobre cidades milenares perdidas, é inegável que naquela paisagem adormece uma história enigmática sobre os primórdios, delicadamente e lentamente esculpida pea força do tempo, do vento e da chuva, o que torna o lugar ainda mais mágico e especial para os corações sensíveis ao poder da natureza.

Dados os créditos necessários aos recortes filosóficos, a trilha – e a viagem no tempo – terminam no topo da Pedra do Mamute (foto acima) local com altitude também elevada de onde é possível vislumbrar um horizonte deslumbrante de aproximadamente vinte por cento da visão de todo o complexo da famosa, enignmática e maravilhosa Cidade de Pedras.

Por ora, ficamos por aqui! Te encontro na próxima aventura!

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